segunda-feira, 20 de novembro de 2017

A inspiração dos pássaros


Encanta-me o voar dos pássaros
Seus aleatórios caminhos
A incerteza de seus destinos
O conforto de seus ninhos

Eu com minha vida calculada
Pensada, refletida, amargurada
Cuidadosamente planejada
Desastrosamente fracassada

Fico a olhar os pássaros
A suspirar seus encantos
Desejar o sucesso de seus cantos
Na esperança do encontro

Entre olhar o desenho feito no céu
Em que as asas são o pincel
Caminho o aleatório dos pássaros
Em busca do meu encontro sonhado


Milena De Andrade

segunda-feira, 16 de maio de 2016

Memórias do Colégio Bom Conselho




Por Milena de Andrade

Sempre tive medo do esquecimento. Desapegar do passado não é uma das minhas habilidades. Passar por algo que marcou determinada fase da minha vida é uma experiência nostálgica sobrenatural, é um fenômeno capaz de transportar-me para o passado em questão de segundos. Imagens em preto e branco, o tempo volta, a história se repete – uma experiência semelhante ao flash temporal dos filmes. É assim quando passo por este prédio, o Asylo das Orphas, que funcionou de 1877 a 1935.
O prédio ainda existe, no bairro de Bebedouro, em Maceió. As suas contas não vão bater: eu não sou da década de 30, tampouco do século passado. O Asylo das Orphas faz parte da Sociedade Nossa Senhora do Bom Conselho e, na época, existiam o extinto Colégio Nossa Senhora do Bom Conselho (CBC), o Asylo, o Convento e, diziam os mais antigos, que também fora um abrigo para refugiados da guerra. Minha vivência com este prédio antigo, que se confunde com a história de Maceió, é como aluna do Colégio Bom Conselho. Naquele tempo, anos 90, ele ainda era gerido pelas freiras da Sociedade.
O prédio do CBC é um dos mais antigos da capital alagoana, sua arquitetura é belíssima, com toques de história e mistério. Ele tem umas espécies de passagens secretas e marcas estranhas que sempre serviram de alimento para a mais fértil imaginação. Haja imaginação! Mas essa imaginação não acontecia por acaso, vez ou outra, passeando normalmente pelos espaços, os alunos encontravam parque secreto desativado, séries de banheiros escondidos por trás de muros altíssimos, passagens secretas por trás do palco, lápides no altar da capela. Lembro-me do palco de piso de madeira, no começo do pátio, com duas escadas laterais. Os meninos levados ( inclusive eu) conseguiram entrar por umas tábuas quebradas embaixo do palco e lá vimos uma parede velha e com umas brechas. Obviamente, brechamos e vimos um parque infantil velho e desativado, parecia um parque fantasma. Achamos a série de banheiros por trás de um paredão e parecia uma espécie de vestiário. Disseram para mim que era da época do abrigo de refugiados. As freiras não tocavam no assunto e os mistérios só aumentavam, as histórias seguiam o mesmo compasso. Tinha um laboratório de ciências sinistro com esqueletos e vidros com partes do corpo humano e fetos de bebês mergulhados no formol – era sensação entre os alunos, mas não podíamos chegar perto. Reza a lenda que o esqueleto foi de um dos professores da escola que havia morrido, mas essa história eu sei que é mentira - eu acho.
Prédio enorme, repleto de encontros e desencontros que eu não quero esquecer. Éramos recebidos por um belíssimo jardim. As flores formavam o nome Bom Conselho. Sobre as primeiras salas de aula, era possível ler as frases de Legião Urbana e Pitágoras "É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã" e "Educai as crianças, para que não seja necessário punir os homens". Lindo. Mas havia umas construções estranhas dentro do CBC, que não faziam sentido algum, a exemplo de um espaço que parecia uma jaula gigante. Era tudo muito lindo e mais lindo ainda era imaginar vidas passadas que ocuparam o CBC antes de nós. Depois da quadra, tinham árvores altas e bancos e por trás deles havia o mangue, um privilégio para poucos. A quadra foi palco para torneios inesquecíveis, grandes competições. As melhores equipes de vôlei e handebol de Alagoas eram do CBC. Assisti a muitos jogos sentada na escadaria/arquibancada para torcer pelo Bom Conselho.
Havia também um grande refeitório que também foi palco de competição, mas desta vez uma competição mais violenta, que exigia um pouco mais dos estudantes. O refeitório e suas guerras de comida, vencer significava sair com a farda intacta, sem manchas de suco ou achocolatado, e os cabelos não podiam trazer sinais do cardápio macarrão, arroz e carne ou sopa de letrinhas. Era muito difícil, mas lembro-me de ter erguido a taça algumas vezes. Bom, a comida era muito boa, na época das freiras.
O extinto Colégio Bom Conselho já foi o melhor do nosso estado, as freiras do Asylo comandavam tudo. Impecável da farda ao ensino, pais e mães dormiam em filas durante a madrugada para garantir uma vaga.
Entrávamos em ordem assim que chegávamos para rezar e receber nossos professores. Diariamente, dos alto falantes de dentro das salas de aula, ouvíamos as irmãs fazendo suas preces e nos chamando para o hasteamento da bandeira e para cantar os hinos do Brasil, de Alagoas, de Maceió, da Bandeira e até da Marinha. Nele estudaram atletas, políticos, artistas, grandes empresários, gente famosa de Alagoas e gente de fora.
Eu cheguei para estudar no CBC em seus últimos anos de vida, segurei sua mão no suspiro final. Fechei os enormes e pesados portões que permitiram a partida das freiras e fui os olhos tristes e afogados que viram pela última vez aqueles hábitos cinzas. Vivi o fim do Colégio Nossa Senhora do Bom Conselho e o nascimento da Escola Estadual Nossa Senhora do Bom Conselho. Vi a chegada do poder público com todo seu poder de destruição de sonhos. Vi um império sendo destruído e nada pude fazer. Hoje, eu me limito a olhá-lo por fora e a receber toda carga de nostalgia que ele me proporciona. Busco coragem para ultrapassar esses muros novamente. Sei que será possível ver e ouvir o passado porque o CBC sempre foi feito de mistérios. Assustadoramente, sempre.


Homenagem ao eterno Colégio Nossa Senhora do Bom Conselho e a todos os seus alunos, professores, órfãs, freiras, padres, jardineiros, todos que têm uma história do CBC para contar.

domingo, 28 de dezembro de 2014

Crônica - Manhã de concurso público

Era cedo, todos de pé. O relógio marcava 8h da manhã, e os lençóis ainda preservavam o calor daqueles que já formavam uma fila, que abraçara o prédio do local de prova.
Os minutos pareciam não passar para os adiantados. A fila já formada, com suas silhuetas, foi desfeita em segundos pelos já exaustos "concurseiros" à espera da abertura dos portões, que sentaram ali mesmo no chão sob sol forte.
Aos poucos, mais candidatos chegavam, e em suas faces a estampa da ansiedade. Pudera, quem diria que o futuro poderia estar num papel, descrito em quarenta questões? Esta foi a definição dada por uma jovem à amiga, ainda na fila, que desabafou o fato de já disputar o décimo concurso público, sem sucesso até hoje.
O barulho de portão velho abrindo ecoou feito música aos ouvidos dos suados e impacientes.
"Entrem devagar e mostrem o documento de identificação mais à frente", gritou o fiscal de prova.
A fila foi refeita, ganhou vida e seguiu. O prédio foi tomado por gente de todo tipo, mas gente e gente quente, que fazia o cartão de inscrição de leque.
A ansiedade parecia ter calado os concurseiros, de modo a ser mais fácil ouvir pensamentos que vozes naquele lugar.
Dentro da sala, alguém resolve quebrar o silêncio. "Ei! Ô, menina, que horas pode entregar a prova e sair?", perguntou uma senhora, no auge dos seus 50 anos.
A fiscal de sala respondeu: "A prova começa às 9h30, mas a saída só é permitida após o meio dia."
"Oi? Eu vou ter de esperar tudo isso para ir embora? E, se eu terminar às 10h30, vou ficar aqui sentada olhando pra sua cara nesse frio da peste?", rebateu a mulher, indicando insatisfação com a baixa temperatura provocada pelo ar condicionado.
A fiscal, em tom de ironia, respondeu mais uma vez: "Olhe, senhora, eu não sou tão bonita, admito, herdei os traços de papai, então pode olhar para o quadro, se preferir".
Um coral de risos dá cor à sala.
Aparentemente chateada, a "reclamona" gritou: "Que regra besta! Tinha que ser coisa de alagoano!".
Pronto, ofendeu os bestas, digo, segundo ela.
E uma mulher de lenço estampado resolveu intrometer-se: "Minha senhora, com todo respeito, todo concurso tem suas regras, e duas horas de prova é o mínimo delas".
"Tá, tá! Eu não quero saber de conversa! Deixe pra lá e fique na sua. Oxi!", disse a senhora ranzinza, com toda ignorância que a coube.
"Chega, gente. Vamos concentrar, pelo amor de Deus", pediu a fiscal.

O preto e branco voltou.

Milena De Andrade

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Máscara


Para quem já foi meu sorriso
Hoje você é a máscara da tristeza que carrego em meu rosto
Embaçada pela respiração cansada
Sufoca-me
Abafa meu riso
Impede o mundo de pintar minha face

Sempre fui do teatro
Mas essa máscara não cabe a mim
Algum dia, espero alguém que possa me ver.


Milena De Andrade

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Mentirosos


Quem é da mentira, da verdade não é
Da verdade não gosta
Nem a verdade quer

Não insiste, tola menina
Tua inocência disfarçada de sacanagem não é mentira
É disfarce de verdade, de quem parece querer sofrer

Você quase caiu, de novo
Tocou as belas mãos no chão
Mas levantou-se logo

Não há tempo
Não há mentira
Não há verdade

É tudo como tem que ser
Foi, é, será
Então, continue.


Milena De Andrade

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Não há amor aqui


As palavras são as mesmas
Os mesmos elogios
As mesmas declarações
As mesmas cantadas sem graça

Que amor preguiçoso!

As mesmas frases de efeito
Não compõe uma nova história
Apenas troca os personagens
E os trata feito frascos vazios
Para tentar sufocá-los com a mesma essência

Que amor cômodo!

Não quero mais recordar o perfume que fui
Quero mudar a semiótica de cada centímetro do meu corpo
Só para não ter que fazer parte desse remake sem desfecho algum.


Milena De Andrade

domingo, 27 de julho de 2014

Roda Gigante


Divertida e instável essa brincadeira. Um segundo é suficiente: embaixo, noutro no alto, e sorri, e chora, e sente medo, e sente coragem, e grita, e... Ela para de rodar, a brincadeira acaba, a vida se despede. Um suspiro.

♥ Milena De Andrade ♥